Bloqueados de Esquerda

Já muito se escreveu sobre o Bloco de Esquerda e o resultado desastroso das últimas eleições. Atribuem-se diversas causas, desde o apoio a Manuel Alegre nas Presidenciais até à recusa dos líderes em encontrarem-se com a Troika. A meu ver, as razões são mais profundas. O Bloco é o partido português com um eleitorado mais distante das bases. Ou seja, enquanto grande parte dos eleitores corresponde a uma faixa urbana e burguesa de esquerda que não se revê na institucionalização do PS, mas que acredita nos valores da «igualdade» e do «humanismo» (seja lá isso o que for), as fileiras do Bloco são compostas por militantes idealistas, inflexíveis e radicais, mais concentrados na destruição da máquina capitalista do que em negociar seja o que for.

Ora, esta posição das bases abre o dilema intemporal de todos os revolucionários. Ou entram no sistema que dizem combater para o mudar por dentro e arriscam-se a ser assimilados (como tantos foram, à direita e à esquerda), ou mantém-se fora e habilitam-se à eterna irrelevância. Já se percebeu que, em função desse dilema, existem duas correntes no Bloco: de um lado a facção Política XXI (Daniel Oliveira, Joana Amaral Dias, Rui Tavares, et al.) que não desdenhariam que o partido se tornasse um CDS de esquerda (algo que agradaria genuinamente a muito boa gente do PS, que encontraria assim um inesperado aliado no Parlamento); do outro o PSR, a UDP e a Ruptura/FER, que além dos dirigentes históricos conta ainda com a máquina do partido (os Jorges Costas), que ao longo destes anos se foi burocratizando e acomodando à ideia de uma organização disponível para todas as lutas mas que rejeita qualquer tipo de compromisso.

Uma coisa é certa: quanto mais o Bloco se radicalizar, menos apoio popular encontrará (a classe média até pode vestir t-shirts do Che, mas não gosta de revoluções permanentes). Da mesma forma, quanto mais se sistematizar, mais apoio interno alienará. O que sucedeu nos últimos tempos foi um ziguezague constante, no qual o Bloco afastou com igual sucesso gregos e a troianos. Mesmo assim, não me parece que a dissolução do partido esteja próxima (nem tão pouco me parece que a queda da votação seja um prenúncio do fim). No entanto, as fissuras são incontornáveis.

2 comentários:

  1. O Rui Tavares supostamente é anarquista, tens a certeza que pertence à Política XXI?

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  2. O Rui Tavares não pertence à Política XXI, mas pelas posições que tem tomado ultimamente nos seus artigos, não está longe das opiniões do Daniel Oliveira.

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